sábado, 3 de março de 2012

Olanzapina de depósito é segura e efetiva no tratamento de manutenção da esquizofrenia

De acordo com os resultados de um novo estudo randomizado de prevenção de recidivas, publicado no American Journal of Psychiatry, a olanzapina injetável de longa ação é efetiva em fornecer até 24 semanas de tratamento de manutenção para pacientes com esquizofrenia.

Mais de 84% dos pacientes que recebem altas, médias e baixas doses do medicamento permanecem livres de exacerbações. Além disso, com a exceção de eventos adversos relacionados à injeção, a olanzapina injetável possui perfil de segurança e incidência de ganho ponderal semelhante à formulação oral.

“Com base nesses resultados, a injeção de olanzapina de longa ação pode representar uma importante opção para o tratamento de manutenção da esquizofrenia”, escrevem os pesquisadores.

“Esse estudo demonstrou que a formulação injetável de longa ação foi igualmente eficaz às medicações orais administradas diariamente”, o pesquisador principal, John M. Kane, médico, do Zucker Hillside Hospital, em Glen Oaks, e do Albert Einstein College of Medicine, no Bronx, ambos em Nova York, contou à Medscape Psychiatry.

“Além disso”, disse ele, “ela está disponível em dosagens diferentes e pode ser administrada uma vez ao mês, o que eu considero uma tremenda conveniência para os pacientes”.



A não-adesão é um problema enorme

A não-adesão é um grande fator de risco para recidivas e re-hospitalização nos esquizofrênicos. Contudo, “os antipsicóticos de depósito podem atenuar a não-adesão, possivelmente reduzindo o risco de recidivas”, escrevem os autores do estudo.

“Reconhecemos a não-adesão no uso de medicamentos como um enorme problema, e uma estratégia muito útil para garantir que pacientes saudáveis recebam um benefício ótimo de sua medicação é administrá-la via injeção de longa ação”, acrescentou o Dr. Kane.

Os pesquisadores buscaram avaliar se pacientes estáveis “que trocaram diretamente da olanzapina oral para a injeção de longa ação poderiam manter a estabilidade clínica com as mesmas taxas de recidiva que os pacientes que continuaram usando a formulação oral”. Eles também avaliaram a segurança e a tolerabilidade.

Um total de 1.065 pacientes esquizofrênicos ambulatoriais, com idades entre 18 e 75 anos, foram inscritos em 112 centros em 26 países entre julho de 2004 e setembro de 2006 e inseridos em uma fase de conversão/estabilização de 4 a 8 semanas. Nela, eles tiveram suas medicações antipsicóticas anteriores abertamente trocadas para monoterapia com olanzapina oral, nas doses de 10, 15 ou 20 mg/dia.

Na conclusão desta fase, os pacientes que preencheram os critérios de estabilização foram então randomizados a receber 24 semanas de sua dose estabilizada de olanzapina oral (n = 322) ou da forma injetável de longa ação do medicamento (n = 743).

Os pacientes randomizados a receber a olanzapina injetável foram posteriormente divididos em grupos de acordo com a dose – alta (300 mg a cada duas semanas, n = 141), média (405 mg a cada 4 semanas, n = 318), baixa (150 mg a cada duas semanas, n = 140), ou muito baixa (45 mg a cada 4 semanas, n = 144).

Todos os pacientes receberam 4 comprimidos orais de medicamento ou placebo diariamente e uma injeção (medicamento ou placebo) a cada 2 semanas.

Os pesquisadores utilizaram as escalas: Positive and Negative Syndrome Scale (PANSS), a PANSS-derived Brief Psychiatric Rating Scale (BPRS) e Clinical Global Impressions–Severity of Illness (CGI-S) para avaliar a gravidade dos sintomas.



Maioria dos pacientes livre de exacerbações

Os resultados evidenciaram que 93% dos pacientes que receberam a olanzapina oral continuaram livres de exacerbações, comparados a 95% dos pacientes que receberam altas doses da injeção, 90% daqueles que receberam doses médias, 84% daqueles que receberam doses baixas e 69% daqueles que receberam doses muito baixas.

Além disso, “o regime terapêutico de 4 semanas (doses médias) e os regimes de 2 semanas agrupados (doses baixas e altas) demonstraram eficácia similar ao da olanzapina oral, bem como entre eles”, escrevem os autores do estudo.

Embora todos os grupos do medicamento oral e da injeção nas 3 doses mais altas tenham mostrado um controle suficiente dos sintomas ao longo do estudo com escores totais médios do PANSS mantidos na metade dos 50, o grupo de doses muito baixas evidenciou uma diminuição significativa com o tempo na metade dos 60. Padrões semelhantes foram observados para escores nas subescalas do PANSS, do BPRS e do CGI-S.

A incidência de ganho ponderal superior a 7% do peso inicial foi de 21% no grupo do medicamento oral vs 21%, 15%, 16% e 8% nos grupos de injeção em doses altas, médias, baixas e muito baixas, respectivamente.

Embora não tenha havido diferenças clinicamente significativas entre os grupos nos parâmetros gerais de segurança, 3% dos pacientes que receberam a olanzapina injetável apresentaram reações no local da injeção. Além disso, 2 desses pacientes experimentaram “sedação e delírio consistentes com overdose de olanzapina após uma possível injeção intravascular acidental”, reportam os autores do estudo. Todavia, esses pacientes recuperaram-se completamente 60 horas após a injeção.

Visto que ocorreram injeções intravasculares inadvertidas em 0,07% das injeções em todos os ensaios com a olanzapina de longa ação, os autores do estudo observam que pacientes que receberam o tratamento devem ser observados por 3 horas após a injeção.

“A eficácia global das doses de [injeção] pareceu comparável à da olanzapina oral, sem diferenças aparentes no uso de intervalos de dosagem de 2 e 4 semanas”, resumem os autores do estudo. “Entretanto, houve evidência de um efeito da dose nas doses altas, médias e baixas, visto que as doses mais altas foram superiores às mais baixas”.

O grupo de altas doses também experimentou um ganho ponderal maior, um aumento na prolactina, e uma incidência mais alta de mudança de níveis normais de triglicerídeos para altos. “Assim, estratégias para reduzir o ganho ponderal e outras mudanças nos parâmetros metabólicos devem ser consideradas”, aconselham os autores do estudo.

O Dr. Kane acredita que os antipsicóticos injetáveis de longa ação devem ser utilizados com mais frequência para evitar recidivas devido a não-adesão dessa população de pacientes. Vários estudos mostram que mais de 50% dos pacientes com esquizofrenia têm dificuldades em tomar suas medicações orais.

“O uso de medicações injetáveis de longa ação realmente deve ser considerado com muito mais frequência do que atualmente é. Isso significa sentar com os pacientes e, junto com eles, tentar encontrar uma estratégia mutuamente aceitável para mantê-los bem”, disse o Dr. Kane.



Adição valiosa

“Existem poucas medicações de depósito disponíveis [para a esquizofrenia] e, portanto, a olanzapina de depósito é uma adição valiosa para nossa farmacopéia”, escreve John M. Davis, médico, professor de psiquiatria da University of Illinois, em Chicago, em um editorial adjunto.

“A razão mais frequente para a recidiva é o fato de que os pacientes não tomam suas medicações orais”, disse o Dr. Davis à Medscape Psychiatry. “Medicamentos de depósito podem solucionar este problema desde que o paciente venha tomar as injeções. Os médicos que trocam o tratamento oral pelo de depósito percebem que podem impedir a recidiva em até 75% desses pacientes”.

Em uma avaliação independente do viés de patrocínio deste ensaio, o Dr. Davis e colaboradores concluíram que os resultados não mostram nenhum efeito do patrocínio.

“De modo geral, eu considero este um estudo excelente e muito bem feito”, afirmou o Dr. Davis. “Para usar esse medicamento com eficácia, os médicos precisam conhecer a dose certa a ser administrada. Os dois grandes erros com a medicação de depósito é não utilizá-la quando há um paciente com muitas recidivas ou utilizá-la em uma dose muito baixa, o que pode levar a mais recidivas”.



Esse estudo foi financiado pela Eli Lilly. Os autores do estudo declararam várias relações financeiras; a lista completa pode ser encontrada no artigo original. O Dr. Davis não declarou quaisquer relações financeiras relevantes.

Fonte: Am J Psychiatry. 2010;167:181-189.

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